Evoé #culturadigitalbr – uma geral pelo Fórum dia 1

Empolgadíssimo, José Celso Martinez Correa transformou a cerimônia de abertura do Fórum da Cultura Digital Brasileira, iniciado nesta quarta, 18, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, num manifesto à liberdade. “O amor é livre, a vida é livre, a morte é livre”, foi enumerando, dando vida às palavras que saltavam do texto que ele assinou em coautoria com ninguém menos que Machado de Assis. O texto – na verdade, um roteiro, com marcações, falas de diferentes personagens e participação de coro – misturou Antonio Conselheiro e defesa da pirataria digital, com a platéia sendo convidada a participar ativamente da leitura dramática feita por Zé Celso, apresentado como “tragicômico dramatorgiástico do Brasil”. Puro Zé Celso.

Foi com a performance de Zé Celso – que desfiou uma sequencia de frases surpreendentes, divertidas, exageradas, nonsense, provocantes, inteligentes – que o dia de estréia do Fórum da Cultura Digital fez o link entre a programação das salas e a da tenda do circo, armada no enorme terreno da Cinemateca Brasileira.

Belíssimo, o prédio da Cinemateca foi transformado num verdadeiro ambiente digital, com uma cenografia interessante, montada para o Fórum e cheia de conceitos: o redário está ali porque, afinal de contas, evento de internet tem que ter rede. Em outro espaço, fios transparentes demarcam as “salas”, mas nada é fechado e todo mundo pode ver tudo, como numa rede social. Entre um galpão e outro, o teto transparente também foi cenografado, e palavras e expressões como “cultura digital” podiam ser lidas acima das cabeças, envolvendo todo mundo nesse ambiente bem real.

A programação vai durar até sábado, nesse formato: discussões de manhã e à tarde, show no fim do dia. Há muito a se ver, ouvir, discutir, pensar, refletir, discordar, descobrir. Neste primeiro dia, deu para perceber o clima dos participantes e a animação da organização. É um evento do Ministério da Cultura, o objetivo é bem sério e complexo, mas o formato é de um encontro prazeroso, onde pessoas interessadas num mesmo assunto vão ficar num ambiente bastante agradável falando do que gostam – mesmo que as discussões sejam áridas e, por vezes, acaloradas.

Na primeira rodada, Silvio Meira abriu os trabalhos falando sobre os white spaces, ou espaços em branco, o que ele defende para tornar possível o acesso à rede para todos. Conectividade gera o lado de fora, pregou. Na mesma mesa, falou-se de infraestrutura de rede, papel desempenhado pela RNP, de uso da rede por comunidades tão diversas como a Rede Mocambos, que reúne quilombolas do Brasil, falou-se de inclusão, falou-se de tecnologia, falou-se sobre cultura digital.

Ao mesmo tempo, em outra sala, uma plenária (plenária = reunião que vai render documento sério) tornou palpável um dos grupos ativos do Fórum virtual, que discute Acervos Digitais. Todo mundo critica que a gente não tem memória, mas discutir o assunto a sério, árido em muitos aspectos, é tarefa que não atrai uma multidão. Pena. Mas, ao mesmo tempo, foi ótimo ter um grupo pequeno e focado falando de dificuldades, pensando em possíveis soluções, enfim, trocando ideia, botando a cabeça para funcionar e, quem sabe, ajudar a construir algo interessante.

No meio de tudo isso, muita área de convivência, muitos sotaques, muita conversa paralela de boa qualidade, muita gente interessante falando de coisas idem, num simpático ambiente de caos agradável – o evento começou com atraso, a programação sofreu mudanças de última hora, como foi primeiro dia, primeiro encontro, ninguém sabia muito bem onde pôr a mão (ah, os primeiros encontros), mas nada disso comprometeu o Fórum, muito pelo contrário.

Tem uma ousadia nessa iniciativa de discutir tanto assunto polêmico num ambiente aberto, numa rede social nem sempre tão simples de navegar e de se achar. Tem um porém aí, que é estar na rede como pessoa física, mas também falando de experincias institucionais. Tem um monte de encrencas não resolvidas, que vão surgindo pelo caminho, exigindo que se pense em novas soluções. Nada mais web! Para quem ainda não entendeu qual é a do Fórum de Cultura Digital Brasileira, a linha de apoio abaixo do nome dá uma bela dica: um novo jeito de fazer política pública.

Parece ousado – e é. Parece caótico – e é. Parece confuso – e também é. Mas justamente por isso tudo o fórum é tão interessante. Quer juntar no mesmo ambiente, falando de igual pra igual, gente que se comunica por memorando carimbado em três vias, com gente que fala tudo o que tem pra dizer na lata, direto, em 140 toques e está tudo certo – e bem dito.

Gosto de participar dessa experiência e gosto de saber que tem tanta gente do duro universo burocrático apostando nela. Ao menos por curiosidade, o Fórum merece ser visto com calma e atenção. É tudo muito novo – e muito interessante.

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