“A sociedade brasileira já se acostumou com um padrão de comunicação, que moldou a cultura brasileira a tal ponto que os horários das pessoas são regulados pelos programas que são oferecidos há décadas. O monopólio da comunicação é um escândalo, do ponto de vista de pluraridade. Talvez a grande tarefa social dos blogs e redes sociais seja abrir uma brecha no monopólio de comunicação no Brasil”.

O ministro Juca Ferreira no lançamento do Fórum da Cultura Digital Brasileira. Esta e as imagens que se seguem são printscreen da tela do computador, enquanto acompanhava a transmissão ao vivo, pela web
Esta foi uma das falas do ministro da Cultura, Juca Ferreira, na roda de conversa dele e outros integrantes do staff do MinC ligado à cultura digital, com vários blogueiros em São Paulo. O encontro, parte da programação do File 2009 (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica), foi transmitido ao vivo pela internet e quem estava online também podia participar ativamente da conversa, realizada como um misto de webconferência e videochat, totalmente interativa.
Estava sendo lançado oficialmente o Fórum da Cultura Digital Brasileira e nada mais coerente do que chamar ativistas digitais de diversas natureza e intensidade para o bate-papo, que durou mais de uma hora, ultrapassou a marca dos 170 usuários simultâneos assistindo online (ao menos enquanto eu assisti, através do meu computador, no Rio), e, além do monopólio da comunicação, passeou por temas tão diferentes quanto direito autoral, política de games, Confecom (Conferência Nacional de Comunicação), digitalização de acervo, Lei Rouanet… Tudo de acordo com o tal “jeito novo de fazer política pública”, como está dito na homepage do Fórum. E, pelo que se viu, o jeito novo está funcionando.

A platéia com vários blogueiros no lançamento do Fórum da Cultura Digital Brasileira
A disposição dos blogueiros, do ministro e dos outros integrantes do ministério para a (boa) conversa levou o encontro para além da explicação do funcionamento do Fórum, dividido em cinco eixos e, desde o dia 31 de julho, aberto a qualquer um que queira participar. E teve cobertura em tempo real através do twitter, onde várias pessoas que assistiam à conversa, postavam comentários incluindo a tag #culturadigitalbr, para que tudo ficasse agrupado no histórico, também depois da conversa e enquanto durar o Fórum.
Que eu tivesse percebido, não havia nenhum veículo de comunicação clássico (ou seria melhor dizer formal?) fazendo o mesmo. Também não li nenhuma reportagem sobre a roda de conversa. O que foi dito ali, além do twitter e do site do MinC, vai estar espalhado em blogs diversos, assinados por quem estava ao vivo em São Paulo com a turma do MinC, ou quem assistia da tela do computador, em algum ponto do mundo – como esta modesta blogueira mezzo neófita, agora mais ativa.
Aqui, compartilho notas do que foi dito e que me chamou atenção. Nem de longe pretende ser um resumo da conversa. É apenas a minha visão/versão do encontro que tive o prazer de assistir online, e cujo vídeo está disponível também no FCDB.
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Confecom: A Conferência Nacional de Comunicação é um assunto polêmico, espinhoso e decisivo, que volta e meia aparecia na conversa. E um dos aspectos que se tocou foi o da Lei do Direito Autoral, que precisa ser rediscutida. Para Claudio Prado, que também cumpunha a mesa, o Fórum da Cultura Digital Brasileira pode ser um espaço para tensionar essa questão e discuti-la melhor. Na platéia, alguém falou sobre articulação em São Paulo, que criou na web o site Proconferencia, para discutir melhor o assunto.
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Alfredo Manevy, secretário executivo do MinC, no lançamento do Fórum da Cultura Digital Brasileira
Lan house: “É um equipamento público e cultural, semelhante ao que a farmácia popular é para o remédio”. A comparação foi feita pelo secretário executivo, Alfredo Manevy, falando sobre a importância das lan houses, alvo de um Grupo de Trabalho no ministério. Instaladas nas periferias e favelas, estão, na grande maioria das vezes, atuando no (sub) mundo informal, ilegal e super frequentado por jovens, para jogar online, se comunicar, pesquisar, enfim, se conectar. Para o MinC, lan house é cultura. E tem que ser incorporada como parte de uma política pública.
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Digitalização de acervos: a campanha para que isso seja feito em entidades vinculadas do MinC é enorme e, como disse o secretário de políticas culturais José Herência, a idéia é “extroverter os arquivos para o público possa ter acesso a eles que, historicamente, foram preservados, inclusive no sentido conservador, por essas instituições”. Como colocar tanto arquivo disponível na rede pode ser um complicador, o MinC fez um acordo de parceria com a RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa) para que capacidade de transmissão de dados e acesso não seja um problema. O acordo já foi assinado e a construção e operação da rede está em curso.
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Acervo da Atlântida: no meio da conversa, o ministro anunciou o que saiu sem muita repercussão. O MinC adquiriu o acervo da Atlântida, comprado do grupo Severiano Ribeiro, e vai digitalizar e disponibilizar na web os filmes produzidos pelo estúdio. Uma notícia e tanto, que, na verdade, merecia um post exclusivo (mas vai no meio do bolo).
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Cultura Digital: o interessante do assunto é que ele é abrangente e diz respeito a qualquer um que, em algum momento, já se viu navegando pela web. Ou seja, não é um tema que seja inacessível ou restrito ao interesse e compreensão de poucos. Pelo contrário. A cultura digital está na ordem do dia da esmagadora maioria da população em idade (ou condição) de acessar um computador – e aqui a discussão pode ser ampliada, indo atrás de referências como esta reflexão de Claudio Prado.
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Acesso livre: Não faz sentido, em lugares onde se pensa e onde se deveria interagir com esse tema tão contemporâneo e o cotidiano, como universidades, restringir o acesso a sites de relacionamento e redes sociais. A bola foi levantada por alguém da platéia e bem cortada por José Murilo Jr., gerente de cultura digital do MinC. Segundo ele, a reflexão sobre cultura digital avança sobre esse tema também, e a decisão de abrir o acesso deve ser mais ampla, tomada por quem pensa no conteúdo que vai para a rede.

José Murilo Jr., no lançamento do Fórum da Cultura Digital Brasileira
Em tempo, alguém na platéia levantou preocupação com os sistemas de proteção no Forum da Cultura Digital, contra spams e outros ataques. E a resposta é: no Fórum, tudo é liberado. Não há moderação para os comentários. “Tudo é muito experimental”, resumiu José Murilo. Ou seja, vejamos como a rede se comporta para ver o que vai acontecer por lá.
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Liberdade na rede: Para terminar, uma passada pela lei do cibercrime, conhecida como Lei Azeredo. Disse o ministro: “O que há de essencial na internet é a liberdade. Nãopodemos reduzir a importância da internet para combater o crime. Não há necessidade de cercear a liberdade (para combater o crime). É preciso lidar com natureza da rede. A liberdade na internet é uma conquista planetária, expressão de uma produção cultural nova. Neste aspecto, não podemos evoluir em direção à China. Temos que evoluir na direção da liberdade.”
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A discussão continua, dispersa na rede e, também, reunida no Fórum, agregado pela tag #culturadigitalbr.