Fragmentos de uma cozinha amorosa é o título da nova coleção da chef Roberta Sudbrack que, como de hábito, reuniu alguns felizardos em seu restaurante, no Jardim Botânico, para apresentar pratos que, desta vez, têm como protagonista o chuchu. Sinônimo de ingrediente sem graça, insosso, quase sem personalidade, o chuchu teve seu dia de revanche e se mostrou em tantas variações de sabor e textura que, em vários momentos, era difícil acreditar que aquele legume pudesse ter chegado tão longe.

Jantar de apresentação da coleção 'Fragmentos de uma cozinha amorosa', de Roberta Sudbrack, inspirada em Roland Barthes (Foto: Vanda Klabin)

Decoração do jantar de apresentação da coleção 'Fragmentos de uma cozinha amorosa', de Roberta Sudbrack, inspirada em Roland Barthes (Foto: Vanda Klabin)

Dobradinha de sucesso com camarão, o chuchu apareceu crocante, picadinho, em lascas, de tantas formas quanto a criatividade de Roberta foi capaz de inventar. A idéia foi a mesma que inspirou coleções (desculpem, mas não há outra definição) anteriores, protagonizadas por outros brasileiros populares como quiabo e maxixe, misturados a outras referências da literatura universal.

Estar àquela mesa é uma festa. E não apenas para o paladar – que, evidentemente, sai de lá renovado por tantas experiências criativas e saborosíssimas. Ali, na casinha laranja, Roberta Sudbrack criou um ambiente em que o prazer da boa mesa vai além do que está no prato – e invariavelmente o que está no prato é simplesmente delicioso. Roberta arruma a casa, espalha flores, abre a cozinha, mistura gente e faz do ato de comer bem uma aventura prazerosa, que equilibra sofisticação e simplicidade na medida exata.

Já estive muito mais próxima da chef e sua trupe – especialmente Ana e Andréa – nos tempos em que assim, meio por acaso, a transformei em blogueira. Ela cumpriu a promessa feita logo no post de estréia, em que disse que agora a gente ia comer na mão dela. Acertou em cheio. Como faz na mesa de seu restaurante – um mesão em que, poucas garfadas e suspiros depois, desconhecidos já viraram velhos amigos -, Roberta foi capaz de juntar gente diferente que rapidamente se articulou na comunidade Viva, que continua ativa, apesar de estar sendo um cadinho difícil achar o caminho da cozinha virtual. Detalhe passageiro. Não há como esconder Roberta Sudbrack.

E ela, por sua vez, tem se deixado descobrir cada vez mais. Recentemente, ela se deslocou um pouquinho pelo bairro e ocupou a cozinha do Jardim Botânico durante a temporada do Inventário do Tempo = Livros, evento orquestrado por Bia Lessa, que ocupou o Espaço Tom Jobim. Roberta levou sabores, texturas, surpresas e prazeres da boa mesa para um público diferente daquele que vai ao restaurante. Foi ali, num almoço do Inventário, que a reencontrei. Um prazer total. No cardápio, ossobuco cozido por 48 horas em fogo baixo com ora pro nobis, por uma chef afetuosa, que coloca sentimento naquilo que faz – sem disfarces, frescuras ou pieguices.

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