Fim do papo, entremeado por vários aplausos, fim de uma apresentação em tudo impecável, parecia que António Lobo Antunes já tinha conquistado a platéia por completo, em sua ótima conversa com o bem preparado Humberto Werneck, na Flip. Engano. Depois do fim dos aplausos finais, com a platéia já se levantando e deixando as tendas (eu estava na do Telão, onde a imagem do escritor já tinha sido substituída pelo logo da Flip), ouve-se o sotaque português de António, que retorna ao microfone e chama a atenção de quem deixava a sala. A imagem dele surge novamente. Queria agradecer a forma como tinha sido recebido, acolhido. “Deus lhes pague”, encerrou.
Emocionante.

Parte da decoração da praça da Matriz, em Paraty, durante a Flip 2009
Em pouco mais de uma hora de conversa, António Lobo Antunes – que até aquele momento era apenas um nome novo no meu repertório, um item na programação da Flip, uma possível mesa a assistir da Tenda do Telão, em Paraty – se tornou num autor imprescindível para mim. Da definição sobre o Brasil – “não é um país, mas são cheiros, gostos, sabores” -, das lembranças do avô brasileiro – “que está aqui agora neste momento” -, das anedotas da infância, da necessidade de entrega ao ofício (mais do que à arte) de escrever, a conversa do escritor com Humberto Werneck foi um daqueles momentos que você agradece por estar naquele lugar, naquele momento. É um daqueles momentos que se tem certeza de que está tudo certo, e que não haveria outro lugar, nem momento, que não aquele para estar.
Escrever é algo difícil. Não é apenas saber manejar as palavras, mas é uma entrega que toca e revela algo às vezes desconhecido até para quem escreve. É por isso que ele, Lobo Antunes, que falou muito sobre suas técnicas de escrever, acredita que começa a vir algo bom quando se está num estado de cansaço e exaustão, em que não é mais possível ter tudo sobre controle. “As coisas começam a sair melhor e a sair de lugares que você não conhece”, disse, explicando que a grande tentativa é reprozudir aquele momento de transição do sono à vigília, em que tudo faz sentido, em que os problemas todos são solucionados com uma clareza absoluta, em que se tem uma sensação de ser genial e a certeza de que compreendeu-se tudo. “Através do cansaço consegue-se chegar a isso”.
Foi impossível não pegar o caderno e anotar o que Lobo Antunes falava. E ele falou profundamente sobre tudo. Ou, melhor. Falou superficialmente sobre tudo, já que, para o próprio, nada mais equivocado do que esta idéia de profundidade. “Não há profundidade. Há infinitas superfícies sobrepostas”.
Falou sobre:
- a família – o avô, o pai, a avó, os irmãos, cada história pontuada por alguma lembrança que dava prazer de ouvir; – o ofício de escrever – “escrever é muito difícil”; “escrever é sobretudo corrigir e reescrever”; “cada grande escritor muda a arte de escrever”:
- Jorge Amado – “era muito melhor que os seus livros”;
- João Ubaldo Ribeiro – “ele passava o inverno na França como se estivesse no verão da Bahia”;
- escritores brasileiros – Paulo Mendes Campos é obrigatório;
- os livros: “Um livro é um organismo vivo, que tem sua personalidade. Tudo o que você tem que fazer é deixar sua mão feliz. Se sua mão está feliz, o livro sai”; “o livro é como uma estátua enterrada no jardim: tem que tirá-la, limpá-la…”;
- ser escritor – “se você não for fiel a si mesmo e à honra de estar vivo, está sujeito aos caprichos da moda”; “você impõe a si mesmo desafios intransponíveis. Se é fácil, não é para nós”; “Você trabalha com aquilo que as pessoas desprezam, não olham”; “você trabalha com as coisas anteriores à palavra – emoções, impulsos – e esse é o grande problema: transformar isso, que é anterior à palavra, em palavras”.
- inspiração – “a maior parte das vezes, chega quando você não está trabalhando”;
- dar entrevistas – “toda entrevista é um tipo de vaidade. Estar aqui e parecer para as pessoas como se é inteligente, Há autores que me irritam. Não é o autor que tem que ser inteligente, mas o livro”;
- literatura – “é isto o que a literatura tem que ser: não livros, mas sonhos, pesadelos. Vida”
- angústia de escrever – a gente fica sempre aquém do que poderia. Essa é a angústia de quem escreve com palavras”
- descobertas – “descobrir um livro novo é uma festa”;
- outros autores – “há lugar para todos e não há espaço para a inveja”
Falou muito mais e há em alguns lugares espalhados pela internet referências (achei uma boa matéria no Último Segundo e uma ótima impressão em Orelha do Livro) a esta que pode ter sido a melhor mesa da Flip. A tentação de classificá-la como tal é enorme, mas como assisti a poucas, seria uma bobagem fazer uma afirmação dessas. Melhor dizer: foi a melhor mesa a que assisti. E isso não é pouca coisa.
julho 6, 2009 at 2:16 pm
Ah, então foi isso o que disse Lobo Antunes quando voltou ao microfone… Eu vi a cena pela web, mas quando ele ia falar a imagem na tela foi substituída pela logo da Flip! Agora, vc disse que ele falou por mais de uma hora. Na transmissão online eu contabilizei 38 minutos… Por que será?
Abraços!
julho 6, 2009 at 2:41 pm
Mariana,
Estranho a transmissão ter apenas 38 minutos… Não cronometrei, mas certamente ele falou mais do que isso. De qualquer forma, achei ótimo esse formato de transmissão ao vivo pela web, porque possibilita que mais e mais gente entre em contato com os escritores e faça descobertas. Acho essencial que o evento não seja restrito ao público que consegue entrar na Tenda dos Autores.
Abraços literários,
julho 6, 2009 at 7:53 pm
Lendo o seu post fiquei com vontade de tentar novamente ler um livro dele. Tenho Exortação aos Crocodilos há uns dez anos na minha cabeceira, mas nunca consigo levá-lo adiante. Acho um livro difícil. Mas vou voltar a tentar. Beijo, Marlene