Durante dois dias, fiquei me deslocando entre salas e auditórios ouvindo fórmulas, experiências, dúvidas, acertos, inspirações, tudo vindo de uma turma de gente que dedicou o sábado ou (em muitos casos, como o meu, e) o domingo a dois eventos sobre publicação na web. Durante dois dias inteiros, siglas, expressões em inglês, tabelas, slides, esquemas, enfim, um emaranhado de letras e números tentaram mostrar para uma platéia diversa como sobreviver na web, fazendo diferença e, de preferência, a coisa certa.

Painel coletivo, feito no encerramento do WordCamp Brasil
Depois de tudo o que vi e ouvi, nada mais errado do que o título deste post. Pelas ferramentas de SEO, ele jamais será encontrado, jamais ajudará esse blog megabissexto a ser encontrado, no emaranhado de blogs que proliferam avidamente na blogsfera, com os objetivos mais variados possíveis. Porém, nada melhor para resumir tudo o que vi e ouvi nos dois dias intensos em São Paulo: tudo o que não se compartilha, se perde.
Quem a escreveu, no imenso painel feito colaborativamente no final do primeiro WordCamp Brasil foi o português José Fontainhas, o Zé (para os íntimos ou não). Além de servir de tradutor para Matt Mullenweg - o criador do WordPress, que passou o fim de semana em São Paulo, por acaso nos mesmos lugares em que eu estava (corrigindo o surto: eu é que estava nos eventos em que o W-Man era a estrela) -, Zé, que é da Comunidade WordPress de Portugal, fez palestra sobre o BuddyPress no WordCamp Brasil. E, no fim do evento, realizado na Funarte SP, escreveu a frase no painel coletivo.
A ideia foi proposta por Leo Germani, um dos organizadores do WordCamp que aconteceu no Brasil pela primeira vez – já houve vários pelo mundo e, segundo Matt, ele já rodou o globo 7 vezes e meia para encontros como este, que reúne usuários, desenvolvedores, programadores e aficionados de vários níveis do WordPress.
Sobre um painel feito por várias tiras de papel emendado no chão, os participantes foram convidados a escrever o que viessem na cabeça, depois de ler uma palavra inicial que seria a primeira a ser posta naquele painel. WordCamp ficou no centro da roda e começaram as associações. Palavras soltas, que poderiam ser linkadas a outras, por quem achasse que havia alguma conexão entre elas: free, friends, São Paulo, comunidade, amigos, guerreira, Cátia – uma justa homenagem à Catia Kitahara, organizadora-mor do WordCamp Brasil.

Catia Kitahara 'passeia' sobre o painel de encerramento do WordCamp Brasil. Ao fundo, curtindo, de camisa preta, Mett Mullenweg, criador do WP
Essas foram algumas das palavras que começaram a surgir, ao redor do WordCamp. Até que o português Zé pegou um pilot e escreveu a frase que dá título a este post: Tudo o que não dás, perde-se.
É dessas poesias, dessas densidades que (só) o português é capaz. É essa a idéia que está por trás, ao lado, à frente e que move essa turma, que às vezes ainda me foge à compreensão.
Ali, na Funarte SP, estava gente apaixonada por alguma coisa – ou várias coisas. Cada um escrevia, publicava, utilizava a web de uma maneira, mas todo mundo compartilhava algo forte, e que a idéia e a prática do WordPress foram capazes de canalizar: um desejo forte de se sentir compartilhando algo, que cresce graças à força que vem da união. Parece até algo meio religioso – a união faz a força, quem não lembra disso? -, parce até algo meio ingênuo, parece que estou sendo crédula demais e ainda não entendi o real espírito da coisa, ainda não saquei o que está por trás disso tudo. Mas talvez não haja nada por trás disso tudo, além de códigos, cada vez mais abertos.
O que vi e ouvi nos últimos dois dias – o sábado e domingo 20 e 21 de junho – em São Paulo foi, de alguma forma, uma evidência de uma mudança de comportamento que já existe, mas ainda custo a me dar conta. Também faço parte dela e preciso ir além de criar contas, fazer logins e não usar aquilo que está aí, ao meu alcance, juntando gente, botando idéias criativas na rua, abrindo discussões ou simplesmente dando vazão a um desejo gigantesco de expressão.
Há um movimento forte, poderoso, invisível para os olhos de uns, mas mais do que ativo para uma galera que está aprendendo a viver dessa forma colaborativa, reinventando relações profissionais e de amizade, numa mudança que está longe do fim e que, ao contrário, tende a se espalhar cada vez mais, e com mais força.

Mais palavras no painel de encerramento feito pelos participantes do WordCamp Brasil 2009
O famoso “vai procurar a sua turma” está aí, na ordem do dia, para essa galera: as pessoas fazem isso o dia inteiro, o tempo todo. Procuram a sua turma e, muitas vezes, a encontram! A turma está dispersa ou está junta e misturada. A turma tem várias faces, muitos interesses. A turma é virtual e sólida. A turma é capaz de realizar coisas concretas (como se a vida digital não fosse concreta… tolice…) e o WordCamp Brasil foi uma dessas demonstrações. Tinha gente ali que nunca tinha se visto, mas já se conhecia e foi capaz de colaborar – e muito – também fora do mundo digital.
Para mim, o WordCamp Brasil foi uma demonstração poderosa do enorme poder de realização e mobilização de uma comunidade virtual, reunida em torno de um interesse comum, uma paixão comum. Me impressionou ver tanta gente vestindo aquela camisa, literalmente. Botando a mão na massa. E me impressionou a postura sem-frescura do “pai” do WordPress, um garoto simpático, que tanto no WordCamp como no CMS Brasil conquistou quem, por algum motivo, não tinha se rendido ao WP, e manteve ainda mais fiel os usuários do blog que a cada segundo, em vários lugares do mundo, dá o seu sonoro “Hello, World” a quem começa sua aventura pela blogsfera.
ps.: a cobertura em tempo real do WordCamp e do CMS Brasil ficou a cargo dos participantes que não perderam tempo e twittaram o tempo inteiro. Resumo de tudo o que aconteceu, ou melhor, resumo das versões do que aconteceu nos dois dias de evento, podem ser encontrados no Twitter seguindo os seguintes ‘endereços’: #wordcamp-br e #cmsbrasil.
ps2.: as fotos feitas por um dos participantes do WordCamp Brasil, Matofino, estão infinitamente melhores do que as deste post, clicadas por mim. As fotos dele já estão postadas no Flickr.
junho 25, 2009 at 4:30 pm
[...] Tudo o que não dás, perde-se, da Ana Claudia; [...]
junho 25, 2009 at 9:30 pm
[...] A Unidade Móvel, Marcelo Costa, [...]
junho 26, 2009 at 5:48 pm
[...] Tudo o que não dás, perde-se, by Ana Claudia (in portuguese) [...]
junho 26, 2009 at 10:24 pm
Ana,
Obrigada pelas palavras tão bonitas, que texto inspirado! Obrigada por ter participado e é isso mesmo, a revolução não está sendo televisionada, como bem disse o Marcelo Estraviz na sua palestra, os velhos paradigmas estão mudando, e se depender da gente estão mudando para melhor, para um mundo mais livre e melhor, onde o conhecimento não tem único dono, mas pertence a todos nós.
julho 3, 2009 at 11:18 am
Cátia, foi realmente uma bela descoberta encontrar ao vivo essa turma da comunidade WordPress-br. Vida longa para todos nós!
junho 30, 2009 at 3:23 am
[...] Scocco, do “Daily Blog Tips” (em inglês) WordCamp Brasil 2009, por Henrique Cintra Tudo o que não dás, perde-se, por Ana [...]
junho 30, 2009 at 1:20 pm
[...] por Daniel Scocco, do “Daily Blog Tips” (em inglês) WordCamp Brasil 2009, por Henrique Cintra Tudo o que não dás, perde-se, por Ana Claudia WordCamp Brasil 2009, Matt Mullenweg e José Fontainhas, por Marcelo Costa [...]
junho 30, 2009 at 11:37 pm
Legal que você também “circulou” na CMS e no WordCamp.
Muito bem escrito seu artigo, por sinal.
A idéia de “compartilhar” e a necessidade de se expressar, tornam o WP uma tão valiosa, quanto fácil,ferramenta de “comunicação”, como Matt ressaltou – muito mais do que um merogerenciador de conteúdo.
Gostaria de conseguir captar, em poucas linhas, como você, o espírito do evento.
Para obter efeito semelhante, escrevi um “discurso”.
grande abraço e parabéns
julho 3, 2009 at 11:16 am
Xcobar, obrigada pelo comentário. Visitei o Dicas interessantes e gostei à beça do diário de bordo.
Grande abraço e parabéns também,