Não teve funk carioca na programação musical do Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileira, em São Paulo. Mas alguns dos versos de Junto e Misturado, a letra de MV Bill, podem traduzir em poucas e certeiras palavras tudo o que aconteceu nos quatro dias intensos em que um público estimado em 700 pessoas se dispôs a ouvir, pensar, refletir, compartilhar, criticar e colaborar com o que está sendo chamado de “cultura digital brasileira”.
O bonde tá formado, eu sou um elo da corrente que é ruim de quebrar
Tamo junto!
Se quer subtrair, fique por aí se não tiver a fim de somar
Tamo junto e misturado, é lado a lado
Era esse o clima do evento em São Paulo, primeiro encontro presencial daqueles que, mesmo nem tão assiduamente, vêm tomando parte das discussões online, feitas na plataforma do Fórum da Cultura Digital Brasileira, aberta a quem quiser participar.

Cinemateca Brasileira, em São Paulo, onde foi realizado o Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileira
E o que se discutiu por ali? Ideias, caminhos para uma política de uso da rede, assuntos áridos como o marco civil da internet (com partipação de representantes do Ministério da Justiça), a economia da cultura digital (quais são os modelos sustentáveis? o quanto se ganha? quem ganha?), direito autoral na internet, experiências em outros lugares do mundo, enfim, assuntos abrangentes e convergentes, tratados de forma séria, mas num clima nada hostil, que convidava ao debate e à participação.
Claudio Prado, um dos idealizadores do Fórum, resumiu o encontro na belíssima Carta da Cultura Digital Brasileira, lida por ele na (des)cerimônia de encerramento, que teve a presença do Ministro da Cultura Juca Ferreira e suas meias coloridas.
No prédio tombado da Cinemateca Brasileira – o antigo matadouro hoje é Patrimônio Histórico -, o Fórum deixou lado a lado teóricos das novas mídias, usuários da rede, hackers, representantes de tribos indígenas, quilombos, amantes dos games, o povo da arte digital, engenheiros que fazem a infraestrutura da rede, os que se preocupam com a preservação e difusão da memória digital, gente do Partido Pirata Sueco, do Google, gente criativa como a galera do circuito Fora do Eixo, capitaneada por Pablo Capilé, uma dessas figuras que, quando se descobre, tem-se a nítida impressão de que tudo o que a gente conhece até o momento não é nada diante de alguém criativo e bem articulado.
Esses são pequenos flashes da parte diurna do evento, composta por palestras, rodas de conversa, plenárias e muito bom papo de corredor.
Ao fim do dia, o movimento natural de todo mundo que desde o início da manhã tentava participar o mais que podia de todas as discussões, era a Tenda do Circo, armada numa partes do imenso terreno da Cinemateca. Ali durante três noites, subiram ao palco atrações musicais pouco conhecidas, cultuadas ou tradicionais, em shows memoráveis.
Para muitos – como eu – os shows foram mais uma descoberta de um mundo novo: Macaco Bong, Teatro Mágico, Tambores de Aço… Onde é que eu estava que eu não os conhecia?
A última noite, total clima de festa e confraternização, Banda Black Rio e Mano Brown dividiram o palco. E aí o choque: para quem é do Rio e nem tão ligado assim em rap, Mano Brown é um nome conhecido e ponto. Para quem é de São Paulo (ou para quem ‘tá ligado’), o cara é um mito. E quando um mito faz quase um pocket show, pode-se dizer que aquela foi uma audiência privilegiada.
Há ótimos resumos sobre o que foi discutido e vivido no Fórum espalhados pela rede e eles vão continuar surgindo à medida que os participantes forem compartilhando suas experiências. Aqui, algumas imagens. E convém leitura dos documentos que foram debatidos nas plenárias e que continuam abertos à consulta e interferência públicas, na plataforma do Fórum, que continua ativa – ou melhor, que, espera-se, será muito mais ativa agora, quando muitos membros virtuais se conheceram pessoalmente – e nada substitui o contato pessoal.

Cerimônia de encerramento do Semináio Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileira, na Cinemateca Brasileira, em SP
Acesso à internet banda larga, qualificação do uso da rede, direito autoral, economia da cultura digital, regulação da rede, comunicação, arte, remix… Todos esses são assuntos pertinentens ao Fórum e que afetam a vida de todo mundo que está conectado – e a de quem não está também. E é feliz e inspiradora a postura do Ministério da Cultura, que tomou a dianteira e está propondo essa reflexão, usando o argumento simples de que, na rede, estamos produzindo cultura. Ideias que surgiram ainda em 2003, quando Gilberto Gil (salve!) assumiu o ministério e que continuaram com força, depois da saída dele.
Afinal, um novo jeito de fazer política pública – como o Fórum se anuncia.
Quem vê a gente fica agoniado
Não sou teleguiado, multiplico no conjunto
Aos guerreiros e guerreiras que lutaram “Tamo junto”
É fácil copiar, difícil é criar
Se for falso é como água e óleo
Não consegue misturar
ps.: depois deste e do longo resumo do primeiro dia, podem surgir outros posts com temas mais específicos tratados no Fórum. Não é uma promessa, mas um desejo – e será, ao menos, uma tentativa.




